Afinal, do que Denise Bottmann está falando?

28 de fevereiro de 2010

Este artigo nasceu de anotações que fiz em duas páginas das traduções de Morro dos ventos uivantes. Abaixo, para ilustração (fig. 1), estão as imagens, par a par, da tradução de Vera Pedroso, Art Editora (a da esquerda) [doravante primeira tradução] e da ed. Landmark [doravante segunda tradução]. Meu intuito inicial era apenas confrontar os dois textos em português, para levantar uma estatística das semelhanças. Ao longo do trabalho, porém, fiz também algumas anotações das opções das duas traduções com base no exame do texto inglês. Essa observação foi parcial, mas profundamente produtiva. Um trabalho desses renderia até uma dissertação de mestrado. Fica aí como sugestão. Em vista da exiguidade do meu tempo, deixo aqui consignadas estas modestas reflexões para quem nelas quiser encontrar alguma utilidade.

Começo pelo nível vocabular. O trecho estudado tem cerca de 645 palavras. As que diferem de um texto para o outro (sublinhadas na imagem) contam 24, portanto a tradução nova difere em 3,7% das palavras em relação à antiga. Não costuma ser tão baixo o nível das discrepâncias em textos literários. Para facilitar a comparação desse dado, anexo na fig. 2 a imagem de duas traduções feitas no Brasil para o romance Eugénie Grandet de Balzac: a da esquerda é minha (L&PM, 2006); a da direita é da ed. Globo, coordenada por Paulo Rónai (as traduções do volume em que está Eugênia Grandet na edição da Globo são assinadas por Gomes da Silveira e Joaquim Novais Teixeira). No trecho aqui mostrado, contei 250 palavras na minha tradução e 268 na da Globo. Sobre uma média de 259 palavras, encontrei 55 diferenças, o que equivale a cerca de 21%. Evidentemente, trata-se de uma abordagem rápida com contagem absoluta, sem uso de pesos para cada nível da linguagem.

Ora, só poderia haver diferenças vocabulares entre duas traduções de Morro dos ventos uivantes, feitas com tão grande intervalo de tempo (1971 e 2007). Afinal, quem escreve hoje como ontem? No referido trecho, por exemplo, há troca de entretendo por cultivando, de vez que por vez em que; de de havia muito por há muito tempo [troca infeliz, aliás], de por esta altura por a esta altura, de prodigalizou-lhe por mimou-a com [por que será?], de tive de por tive que. Mas há correções! A não ser mais uma vez com certeza traduz melhor but once more do que a não ser para sempre. Também é preciso adaptar para não causar estranheza, como usar pálpebras em vez de cílios [tradução literal de (eye)lashes], pois afinal é nas pálpebras que as lágrimas se acumulam antes de cair pelas faces, e não nos cílios. Está aí certamente um importante debate: onde, afinal, se acumulam as lágrimas?

A análise das diferenças nas figs. 1 (Morro dos ventos uivantes) e 2 (Eugénie Grandet) também revela um caráter qualitativo que o simples levantamento percentual das diferenças vocabulares não mostra: trata-se das opções sintáticas. É fácil ver que entre as duas traduções de Morro dos ventos uivantes elas praticamente não existem, ao passo que nas duas de Eugênia Grandet elas são abundantes.

Em qualquer tradução, mas sobretudo na literária, esse fator, muito mais que o vocabular, demonstra a originalidade das opções. Simplesmente porque ele é subreptício, porque a ele ninguém dá atenção, ou pelo menos não lhe dão atenção os que acreditam, ingênua ou desonestamente, na possibilidade de duas traduções idênticas. Acreditar que é possível construir um texto complexo com duas sintaxes idênticas, partindo-se de outra língua, é o mesmo que esperar de dois músicos eruditos a mesmíssima linha harmônica e a mesma orquestração para dada melodia, desde que eles trabalhem separadamente.

Mas no caso de Morro dos ventos uivantes a afinação entre duas mentes separadas por um oceano de tempo só pode mesmo ser fruto das grandes afinidades entre almas gêmeas.

Fatos!

Adjunto adverbial é um bom começo para qualquer análise desse tipo. Trata-se do elemento sintático mais flutuante em todas as línguas: há as que preferem vê-los no fim ou no começo da frase, como o inglês, há as que fazem questão de grudá-lo ao verbo, como o francês, e há as anarquistas, como o português. Pois bem, nos dois textos eles estão sempre exatamente nos mesmos lugares e são expressos sempre do mesmo modo.

Outra observação interessante: a periodização é idêntica. Caso emblemático nesse trecho é o seguinte: onde o inglês diz:

you’ll long again to have me under this roof and you’ll look back and think you were happy today”

as duas traduções rezam:

você desejará novamente ter-me aqui, debaixo deste teto. Recordará este dia e achará que era feliz.

Sem comentar a perda de oportunidade, nos dois casos, de explorar poeticamente os futuros you’ll long e you’ll look back and think seguidos de um passado were remetendo a um presente today, do ponto de vista sintático chama aí a atenção o fato de terem as duas traduções cortado o período exatamente no mesmo ponto e com as mesmas palavras. Como se vê, o inglês não tem ponto. À tradutora mais antiga certamente não apeteceu escrever e… e… e pareceu mais elegante cortar o período. Interessante e rara coincidência de gostos também neste caso.

Outros fatos interessantes:

1. it [despondency] might be partially removed by a change of scene

foi traduzido nos dois casos por:

e que talvez [ela] melhorasse

Ou seja: nos dois casos as opções sintáticas foram idênticas, nos dois casos houve substituição do sujeito it por um ela oculto (pois a sequência frasal em português só pode levar a ela).

Nesse trecho, do ponto de vista vocabular, também é surpreendente o uso de pessimismo para traduzir despondency, que tem um sentido mais passivo, de desolação, desânimo, abatimento, desalento e coisas do gênero, e não tão ativo como costuma ser o pessimismo. Como se vê, dentre as dezenas de possibilidades semânticas, novamente a tradutores antigos e novos acertaram o mesmo alvo, desta vez um tanto distante, mas decerto bem visível para olhos aguçados.

2. till another room could be prepared

foi traduzido nos dois casos por:

até que se pudesse preparar outro quarto para ela

Ou seja: nos dois textos teve-se a ótima ideia de acrescentar “para ela”, certamente em vista da louvável preocupação em facilitar a vida do leitor. O que me chama a atenção também aí é a propriedade com que uma voz passiva analítica do inglês could be prepared foi traduzida por uma voz passiva sintética em português, coisa em que os tradutores atuais não primam, coisa que eles nem conhecem, coisa que denigrem quando conhecem, preferindo em geral a tradução literal, analítica; mas desta vez estamos diante de milagrosa e alvissareira comunhão do bom gosto.

3. to obviate the fatigue, que ao pé da letra é para/a fim de evitar(-se)/obviar(-se) o cansaço/a fadiga [pequeno trecho em que é possível identificar 16 possíveis combinações],

está na tradução antiga como

a fim de poupar-lhe o cansaço

e na atual como

a fim de poupar-lhe o esforço

Ora, está claro que quem poupa poupa esforço, não cansaço. E quem há de discutir? Mas se, entre cansaço e esforço, o tradutor atual e o antigo não se entendem, tudo parece harmonioso na opção de traduzir obviate por poupar e — mais que isso — dependurar no verbo um providencial lhe.

4. Não há dúvida de que the master, no contexto, é o Sr. Linton, e não haveria por que não substituir um por outro. Claro! Por que direi o Presidente se posso dizer Lula? Nada mais explicável do que essa outra coincidência.

E paro por aqui não porque não haja mais o que comentar, mas porque não tenho tempo para tantas e instrutivas observações.

Se não fosse tão perigoso, eu ousaria dizer que a tradução atual é a antiga passada por uma revisão. Mas não ouso! Ou ouso?

Figura 1

Figura 2

Se você quiser ver mais trechos de Morro dos ventos uivantes e de Persuasão, clique no link abaixo.

MVU e Persuasão

Trata-se de um arquivo em PDF com o seguinte conteúdo:

Persuasão pela Landmark do começo até pág. 10. (A tradução portuguesa integral, que Denise aponta como a original, pode ser encontrada na íntegra neste endereço: http://www.scribd.com/doc/10183025/Jane-Austen-Persuasao)

Morro dos ventos uivantes pela Landmark da pág. 11 até a 20.

Morro dos ventos uivantes, Art Editora, 1985, trad. Vera Pedroso, da pág. 21 à 35, que Denise indica como original


12 Respostas to “Afinal, do que Denise Bottmann está falando?”


  1. […] Ps. Afinal, do que Denise Bottmann está falando? Veja exemplos aqui […]

  2. Celina Portocarrero Says:

    Amigos,
    assinei e divulguei o manifesto. Por favor, contem comigo para qualquer outra forma de ajuda.
    Um abraço e obrigada,
    Celina Portocarrero

  3. Joãozinho Says:

    talvez seja digno de nota dizer, que a tradução de “Gomes da Silveira e Joaquim Novais Teixeira” também cultiva certas semelhanças com a de Moacyr Werneck de Castro, para editora “ediouro”.
    São apenas suposições minhas, não sou nenhum perito no assunto.

  4. Luma Says:

    Olá, Ivone!

    Assinei a petição de apoio e queria apenas lhe perguntar sobre a primeira tradução em português do livro “O morro dos ventos uivantes”, datada de 1902, que consta ser um trabalho de Oscar Mendes e que tenho aqui comigo; afinal a identidade era fake? Pergunto por causa desta postagem http://www.lendo.org/lista-de-plagios-da-nova-cultural

    Existir, o tradutor existiu http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/fragmentos/article/view/7676/7010

    Por favor, gostaria de esclarecimentos, pois no primeiro link também é citado o trabalho da Denise.

  5. Luma Says:

    corrigindo: 1902 é a data de nascimento de Oscar Mendes


  6. prezada luma, oscar mendes é o autor da tradução legítima e entre parênteses consta o nome do pretenso tradutor na edição da nova cultural: Emily Brontë, O morro dos ventos uivantes, trad. Oscar Mendes (fake Silvana Laplace).


  7. prezada luma, em tempo – se lhe interessar, você pode ver aqui um trechinho ilustrativo do respectivo cotejo oscar mendes/ silvana laplace:
    http://naogostodeplagio.blogspot.com/2008/11/assassinado-tradutores-3-o-morro-dos.html

  8. Luma Says:

    Denise, obrigada pelos esclarecimentos! A tradução que tenho é mesmo a original.


  9. Até parece que foram “nossos” políticos que inventaram este tal do Direito ao Esquecimento. Já que eles são o “espelho” nesta inversão de papéis, onde se aproveitam de brechas jurídicas para befeneficiarem seus atos libidinosos, ferindo nossa capacidade de julgamento e gritando a todos os 4 cantos do mundo que somos idiotas (isto é o que eles pensam).
    Atitudes corajosas como esta, de mostrar e apontar o errado, são capazes de fazer toda diferença no cenário sócio-político deste nosso lindo e querido Brasil!
    Parabéns Denise!


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